A Missa do Galo
Teatro da Trindade
Produção Câmara Municipal de Matosinhos, com autoria de Carlos Tê e Manuel Paulo, encenação de Luisa Pinto, cenografia de João Mendes Ribeiro, desenho de luz de Bruno Santos, interpretação de António Durães, Flora Miranda, Isabel Carvalho, João Miguel Mota e Rui David, músicos: André Hollanda (bateria/toy piano), Marco Nunes (guitarra), Miguel Ramos (baixo) e Pedro Vidal (guitarra/pedal steel/banjo).
"A Missa do Galo" segue livremente a estrutura dramática e litúrgica duma missa católica romana. Inspira-se nas velhas Missas do Galo transmontanas com desgarradas assentes em motes do Evangelho, acompanhadas à concertina, aqui substituídas por canções. O galo desta missa é o Homem que ascendeu ao poleiro da ciência e da tecnologia e que, perante o espelho da sua admirável prosperidade, tem um assomo de melancolia ao perceber que, apesar de ter tudo, continua a padecer da inveja, da mesquinhez e da ganância. A missa recorre à metáfora central duma barca que atravessa a História num roteiro de factos e alertas contra os perigos da repetição e do esquecimento. Nesse percurso eucarístico, com vista à redenção e ao perdão, o galo tropeça num paradoxo: o conhecimento concedeu-lhe o livre-arbítrio que lhe permitiu emancipar-se do velho pai castigador, mas, ao mesmo tempo, depositou-lhe na alma uma momentânea nostalgia do tempo em que o Pai ralhava com ele pelos erros cometidos. Vê-se assim confrontado com o preço da liberdade: solidão da responsabilidade. A missa é o espaço introspectivo que disseca a melancolia proveniente dessa responsabilidade – que ele combate com o consumo enquanto modo de vida, e cujo corolário é o primado da tecnocracia sobre tudo e a ameaça de esgotamento de recursos do planeta. O processo assenta numa espécie de monólogo shakespereano no qual o galo é visitado pelos seus fantasmas interiores, juízes da consciência que o vêm julgar por ter substituído o Humanismo dos últimos cinco séculos pelo neo-liberalismo dos últimos trinta anos, onde as pessoas são apenas números e estatísticas. O veredicto é ser transformado em arroz de cabidela, num sacrifício votivo e solsticial.
Reservas: 213420000 / 707234234
Qua - Sab: 21h; Dom: 16h
Em cena desde 20 de Janeiro de 2012 até 29 de Janeiro de 2012 - Lisboa